Friday, February 19, 2016

Mito (sem conclusão)

Eu olhando você comer sushi, sentados no chão, transportei nós dois pra uma tenda árabe.
Eu olhando você retirar sua corrente do pescoço rígido te dei músculos de aço e te banhei no ouro.
Eu olhando você respirar, senti seu ar saindo em acordes de guitarra e corri montar nossa banda. 
Eu olhando você nivelar as luzes do quarto, me fiz vaga-lume e pisquei mil vezes.
Eu olhando você abrir a garrafa, te imaginei saca-rolhas na função vulgar do penetrar e gritei com o estouro.
Eu olhando você limpar sua boca, me fiz guardanapo de tecido deitei-me estendida sobre seu colo durante todo o jantar.
Eu olhando você conduzir nossa noite, te vi  flanelinha, te enxerguei malandro e te joguei moedas.
Eu olhando você procurando na carteira a nota de dois, te cunhei em euro, eu te chapei em libra.
Eu olhando você vestir a camisa jogada sobre o teto do carro, trabalhei em dobro, ensaboei meu capô e enxaguei com baldes. 
Eu olhando você mostrar a língua no portão fechando, relembrei seu beijo e me perdi na marcha.
Eu olhando a letra sertaneja da música que me cantou, concordei, que a "sorte" é a "nossa" e comprei ingressos.
Eu olhando sua conversa séria no meu histórico do aplicativo, te respondi gargalhando, te devolvi sorrisos.
E por fim, 
Eu re-olhando agora todas essas nossas lembranças, começo a gostar de desvendar seu mito.