Wednesday, February 17, 2016

Eu vim menina.

Quando nasci recebi um passaporte escrito "Mundo" e ele foi entregue pelas mãos das cinco irmãs curiosas que já existiam aqui.
Cresci protegida dentro desta família feliz até que um dia as maninhas traiçoeiras me acomodaram no carrinho de bebê, me levaram até o alto da rampa da varanda e em contagem regressiva soltaram meu possante para deslizar piso abaixo. Inocente eu me entreguei à brisa, à velocidade até ele brecar numa pilha de tijolos e eu me dar conta que meu queixo sangrava e por sangrar levava junto a  parte da minha  inocência.
Algumas vezes tenho a impressão de que nunca engatinhei. Que eu andei primeiro e só agora quando convém eu engatinho. Deste episódio eu sai no colo, lugar onde não se anda, não se engatinha. No colo ou sossega-se ou esperneia. Creio que já ali acolhida me deixei levar sossegada até o pote de sal da cozinha que minha mãe certamente usou pra fechar o talho.
A minha cicatriz começou enquanto ainda me debatia sob o "CHIIII, pronto! pronto!"
E foi assim que meu passaporte foi carimbado  por tijolos insensíveis e irmãs construtoras de pequenos traços na minha personalidade logo a ideia do que é ser  caçula começou a ser implantada numa era sem chip e tecnologias do tipo.
Depois de nascer eu sei que tive quase nada de colo e pouco peito. Além de pensar que andei antes de engatinhar eu penso que comecei a comer carne antes mesmo de mamar. Talvez por isso ainda mamo quando  me agrada e me canso do hábito de fritar meu próprio bife!
Depois que nasci a barriga da minha mãe virou área VIP e só  quem tem mais irmãos e se vê obrigado a entrar nessa disputa vai concordar. Sempre que procuramos por ela tem outra cabeça encostada ou até  fogão e pia!
Embora minha mãe fosse ninja na prova do revezamento no fundo ela era só uma mulher com mais filhos do que braços e, acredito que na maternidade o idealismo acaba no instante em que se tem o segundo provento, então nem minha mãe idealizou meu mundo e nem eu idealizei minha mãe e nós estamos nessa relação de mundo-vida até hoje porque além do segundo veio pra ela até o sétimo! Acho que no fundo, mães que não forem práticas como a minha na hora de distribuir o afeto devem trocar de  modalidade pois os filhos são sugadores de carinho e isso além de leite. 
Meu passaporte nunca venceu e eu tenho sorte por isso.

Cada dia após meu nascimento ganho um carimbo diferente nele e os fatos novos se sobrepõem aos demais sem desrespeitá-los porque os de hoje são consequências dos de ontem e só existiram pra me formar na vida e me fazer ser o que eu devia ter sido desde o dia em que cortaram o cordão com o mesmo ânimo de quem cerra a fita vermelha e  de quem diz que ficou pra trás a mãe de cinco e agora nascia comigo também  a mãe de seis e pra ela foi anunciado aos sorrisos: Nasceu! é uma menina... Mais uma!